«On ne meurt jamais d’amour, on devient fou» Marguerite Duras
Alexandria, ano de 414 d.C., a noite aproximava-se trazendo a sombra do oriente. Hipátia caminhava em direcção à Biblioteca. Havia uma equivalência expressiva entre a face de Hipátia e a noite que se inflitrava na cidade. Um ar sombrio e pesado que evidenciava um sentimento perturbador, como que um prenúncio de morte.
O porto da cidade transpirava o frenesim de todos os dias. Barcos macedónios e fenícios, aristocratas gregos, soldados romanos, mercadores judeus, e outros visitantes da India e do Sara Africano, toda esta amálgama fervilhava no caldeirão do mercado e exalava uma vida própria como se de um único ser se tratasse, mas esta visão não contagiava Hipátia. Havia já algum tempo que uma angústia inexplicável se tinha apoderado dela. O que a perturbava era não lhe conseguir descobrir a fonte, a causa. E no entanto ela tinha tudo para se sentir a mais realizada e preenchida das mulheres. Ela, a directora da Biblioteca, a única mulher em todos os seus setecentos anos de história! Não lhe tinha sido fácil impôr-se na hierarquia vigente, tipicamente masculina, e só grandes feitos na matemática, na fisica e na astronomia lhe tinham valido aquilo que era o posto mais prestigiado da ciência da época, e no entanto isso não a aliviava. Para fugir ao absurdo de não conseguir justificar este sentimento associava-o á decadência da cidade. Infelizmente, Alexandria já não tinha o fulgor de outrora, já não possuia o titulo de capital do médio oriente, perdendo-o para Constantinopla. Alexandria asfixiava como uma filha presa a um cordão umbilical demasiado estreito, que a sua mãe, Roma, já não podia suportar. Mas apesar de ter perdido o brilho do seu apogeu, a cidade conservava ainda a sua dignidade, com as suas avenidas de trinta metros de largura, com o seu farol de mármore imponente sobre o porto mediterrânico, e com todas as outras pequenas coisas que fazem a alma de uma cidade cosmopolita, mas o seu maior orgulho era a Biblioteca, gloriosa e imponente com as suas colunatas de mármore branco. Um fantástico monumento à sabedoria proclamado pelos reis Ptolomeu às nove musas. Meio milhão de manuscritos em papiro, recolhidos de todo o mundo, contendo as obras dos grandes cérebros dos últimos setecentos anos. Euclides, Pitágoras, Arquimedes, Eratóstenes, Sófocles, Ésquilo, Eurípedes e uma infinidade de outros tinham trabalhado nos seus laboratórios, estudado nos seus jardins e discutido ideias nos seus amplos salões. Hipátia sentia a Biblioteca como sendo o cérebro e o coração do mundo, e tinha razão…
A chama da lamparina construía um pequeno espaço de luz no centro da sala, suficiente para uma mulher se dedicar ao seu trabalho, mas débil demais para fazer diluir as sombras que dançavam na parede. Hipátia escrevia com gestos lentos em cima do papiro quando um criado entrou e esperou ser interpelado.
- Fala…
- O Arcebispo deseja ser recebido.
Houve um momento de silêncio e o criado iria jurar que as sombras da parede cresceram. Esta visita era inexplicável. Desde que Constantino, o Imperador, tinha proclamado o cristianismo a religião do império, que os cristãos tinham passado de uma atitude discretamente submissa para uma arrogantemente intolerante face às outras religiões, e Cirilo, o Arcebispo da cidade, era conhecido exactamente pelas suas ideias radicais e por antagonizar tudo o que a Biblioteca representava. Segundo ele os mistérios de Deus eram para permanecer mistérios e não para serem desvendados pelos homens, portanto uma visita dele era algo de quase paradoxal. Este paradoxo atingiu Hipátia como uma ironia do destino.
- Diz-lhe que o receberei na sala comum.
Cirilo era de uma corpulência fenomenal. Havia piadas à volta do seu tamanho que diziam que os criados que lhe transportavam a liteira tinham de ser mudados semanalmente devido a problemas de coluna. Cirilo sabia que as pessoas se riam dele pelas costas, tinha sido habituado a isso desde pequeno. Carreguava as lembranças de uma mãe que se ria dele quando era castigado pelo pai com uma chibata. Vivia na certeza de que todo o mundo ria na sua cara e ele desprezava o seu próximo da mesma forma. Na missa, nos sermões, berrava castigos eternos a todos os presentes pelos seus mais ínfimos pecados, prometia-lhes o fogo do inferno, os maiores horrores prestes a consumir as suas almas pecadoras e regozijava-se pelas expressões de terror que conseguia impor na cara dos seus fiéis. Era a sua forma mesquinha de se vingar e de se proteger, pois era difícil rir-se de um dos representantes de Deus na terra. Houve um dia porém que conheceu Hipátia. Tudo se passou num jantar do governador da cidade em que ela tinha comparecido. Um dos bancos cedeu ao seu peso, e Cirilo estatelou-se no chão. Os convidados ficaram vermelhos e pareciam que iam explodir só para conter o riso, só Hipátia ficou serena num sorriso que não era humilhante, mas que lhe pareceu quase de compaixão. Durante muito tempo manteve aquela expressão na memória. O que levava Hipátia a ser diferente das outras pessoas ? O que teria Hipátia visto nele que tivesse ido para além do ridículo da sua figura ? Todos os dias seguintes olhava-se ao espelho com redobrada atenção à procura do que Hipátia tinha visto. A pouco e pouco começou a ver por detrás daquela imagem outro homem com qualidades de que ela poderia ter gostado… Teria sido isso? Teria Hipátia manisfestado afecto com aquelo sorriso ? Não, não seria possivel… Foi então que se apercebeu de que Hipátia sempre tinha recusado todos os seus pretendentes e que eram muitos devido a ela ser uma mulher belíssima e prestigiada pela sua posição. Para Cirilo tudo fez imediatamente sentido. O que poderia levar uma mulher com o poder de ter qualquer homem as seus pés recusá-los a todos, só poderia ser um amor proibido e inconfessável, e ele era esse amor ! Seria impossivel descrever o êxtase que se seguiu a esta conclusão, talvez só comparável ao conflito interior que se instalou de imediato quando viu que tinha devotado a sua vida a Deus e que ela era pagã. Interpretou o silêncio de Hipátia como a sua vontade de não o submeter a uma dúvida de fé. Esse gesto fez com que ele a ficasse a amar ainda mais, um amor doentio permanentemente em conflito entre as suas emoções e o seu dever religioso. O conflito durou muito tempo mas o seu amor por Hipátia crescia de tal forma que seria capaz de tudo por ela, até ser excomungado e largar o sacerdócio. Hoje tinha tomado a decisão de lho dizer em pessoa para que ela não tivesse mais o conflito do silêncio forçado.
Cirilo entrou na sala comum onde Hipátia o esperava, aproximou-se lentamente do centro e compreendeu o silêncio como uma pergunta.
- Hipátia, creio que sabes porque estou aqui…
As suas faces começaram a ruborizar-se, Hipátia permanecia em silêncio.
- Sei que há muito que esperas que eu tome a iniciativa, mas tem me faltado a coragem…
As suas mãos suavam, o seu coração batia muito depressa e se não fosse tarde de mais tinha se posto em fuga. Olhava para o chão e só raramente conseguia levantar os olhos para Hipátia não conseguindo encontrar uma luz no seu olhar que lhe desse coragem. Hipátia continuava calada, com aquilo que parecia um pequeno sorriso. Cirilo sentia-se desfalecer e enchendo o peito de ar disse :
- Quero dizer-te que te amo, que te quero, que sei que sentes o mesmo por mim e que permaneces calada apenas pelo respeito ao meu voto de castidade perante Cristo. Quero dizer-te que pensei muito, pensei que nunca seria capaz de abandonar tudo isto, por nada neste mundo, abandonar o poder, os privilégios… Mas por ti seria capaz de tudo, quero dizer-te que por ti deixo o sacerdócio e entrego-me de corpo e alma a este nosso amor…
Só o silêncio se lhe seguiu… Hipátia permanecia no centro da sala numa pose esfíngica, mas revelava um olhar de uma subtil perplexidade… Cirilo pensava desfalecer, cada segundo tinha o peso da eternidade, as pernas tremiam, as mãos suavam, ofegava. Por fim Hipátia falou.
- Cirilo, meu bom Cirilo, que ideias essas que você constroi. Não vê que seria impossível eu amá-lo, não vê que eu já pertenço a outro amor.
Cirilo só se conseguiu manter de pé devido a uma força sobre-humana. Não sabia qual tinha sido o maior choque, saber que afinal Hipátia não o amava ou saber que afinal, a mulher desejada por todos os homens de Alexandria pertencia a alguém. Quem seria esse Adónis, esse Deus, esse ser tão perfeito que tinha conseguido cativar e prender o coração de Hipátia.
- Vem Cirilo quero apresentar-te o meu amor.
Cirilo não sabia se era capaz de se mexer. Ali na biblioteca, esse ser encontrava-se ali ! Arrastou-se atrás de Hipátia, sentindo todo o peso do mundo no corpo, arrastava-se mesmo, sentindo que iria ser apresentado a um autêntico Deus encarnado. Entrou na sala dos manuscritos e Hipátia já esperava por ele. Hipátia abriu os braços e disse num tom solene.
- Este é o meu amor, Cirilo. A procura da verdade, o conhecimento e os papiros com as obras dos grandes génios que por aqui passaram. Como pensarias tu que eu seria capaz de me entregar a outro quando o meu coração há já muito lhes pertence.
Cirilo ofegava. Não… Papiros ! Manuscritos ! Conhecimento ! Que brincadeira era esta, que infâmia que… Hipátia trocava-o por papiros… Era impossível, tinha de existir alguém, um ser, não livros !!!
- Como podes tu brincar com o meu coração Hipátia, não tu que sempre me compreendeste, não tu… Que verdade é esta de que me falas, verdade em manuscritos pagãos, não me podes falar assim, tu sabes que não me podes falar assim… Sabes que a verdade já existe…
Cirilo suava torrencialmente, quase desfalecia, saber que Hipátia nunca seria dele por causa de uns manuscritos, ainda por cima manuscritos não cristãos e ainda tinha o descaramento de lhes chamar verdade… Verdade !!! Cirilo, chorava como uma criança, as lágrimas corriam-lhe pela face, caiu finalmente por terra de joelhos. Introduziu a mão no colo da batina e com uma expressão de raiva submissa mostrou um livro a Hipátia.
- A verdade !!! Esta é que é a verdade !!!
Os olhos de Hipátia brilharam quando viram o livro nas mãos de Cirilo. Um olhar a um criado foi o suficiente para manisfestar as suas intenções. O criado ajoelhou-se perto de cirilo e retirou-lhe cuidadosamente o livro das mãos, e na mesma posição entregou-o a Hipátia, que o agarrou numa atitude da mais admirável curiosidade. A cara de Hipátia tinha se transformado na presença daquele livro, enquanto página a página o desfolhava. Havia um brilho de admiração, uma alegria serena, só comparável à curiosidade das crianças. Cirilo, julgou contemplar um anjo. No fim de algum tempo Hipátia emitiu um suspiro.
- A Bíblia… Sabes Cirilo já li este livro a algum tempo e é realmente interessante, de facto tenho aí os manuscritos originais de Mateus e Paulo, se os quiseres ler estão em melhor estado do que estes…
Ouviu-se subitamente um grito que nada parecia ter de humano. Cirilo tinha se levantado e fugido. A escuridão é a mãe dos que fogem e Cirilo fugia. Queria estar o mais longe possível da Biblioteca, o mais longe possível de Hipátia e do riso que julgava ouvir na sua mente, um riso que nunca mais haveria de o largar…
Os meses passaram e ninguem chegou a saber o que realmente tinha acontecido naquela noite. De facto, eram muito poucos o que se importavam ou sabiam o que se fazia dentro da Biblioteca. Nas igrejas, os sermões diziam que dentro dela se adoravam outros deuses, que se escarnecia de Cristo e adoravam livros demoníacos. As contestações foram durante o tempo subindo de tom, alimentadas pelas superstições, pela mesquinhez e sobretudo pela loucura de Cirilo, e, quando um dia se juntou uma multidão para pôr fogo à Biblioteca, não houve ninguem para a defender. Quanto a Hipátia… entraram nos seus aposentos, arrancaram-lhe a roupa e separaram-lhe a carne dos ossos com conchas de abalone. Ninguem pareceu notar que eram todos partidários fervorosos do Arcebispo, ninguem notou o próprio riso de Cirilo enquanto os livros dos génios que lhe tinham roubado a felicidade ardiam em chamas…
Hipátia foi esquecida com as cinzas da Biblioteca, Cirilo foi santificado. Foram necessários 15 séculos para redescobrir a ciência e a arte de Alexandria. 15 longos séculos…