Karmaleão
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O Poema Contínuo…

A morte acesa no rosto de mármore,
ilumina o silêncio branco.
São precisas palavras vivas, obscuras, incendiárias.
Palavras como crimes, violência solar
flores nos escombros do mito antigo
que defendam o mistério
complexo e irreal - imaginário.

É preciso uma luz que atravesse o chumbo
grito de águia que quebre o silêncio
para iluminar as veias da revolução.
O seu código secreto, escrito a sangue
cantará o homem novo,
o hiperbóreo.

*

És a luz branca do milagre,
adiamento impossível do coração
escreves: sangue, tempo, verão
e as tuas mãos dissolvem o nevoeiro
as mesmas mãos, onde irei morrer
e renascer de novo.
Flor nos escombros…

*

A primavera dos sentidos
desponta como marca na pele
afasta a morte invernal,
com os seus dedos frágeis
o sol múltiplo
aceso nos dias de março
os rebentos de chuva
impregnam a terra
e a vida nasce em frutos doces

(o poema contínuo)

Auto-Retrato

Se tivesse de escolher uma palavra, seria, perplexidade. Descobri-a muito cedo, numa tarde de praia adolescente, onde um livro me sussurrou a dimensão do céu. De então para cá, tem sido um desfilar de íntimos espantos. Desde muito cedo tive a prova de universos paralelos, até à universidade vivi em 12 escolas diferentes, muitas delas separadas por países de distância, talvez por isso me tenha sentido até muito tarde, estrangeiro no meu próprio corpo. Obtive a nacionalidade da minha pele, com o meu primeiro amor à distância, e foi com ela, que também descobri o meu amor pelas palavras. Eu já conhecia palavras, como sangue, cor ou fumo, mas com ela aprendi outras mais silenciosas, penduradas na boca, nas mãos e no sexo escuro em tardes claras. Depois aprendi a palavra inverno, num quarto vazio de uma cidade desconhecida. Felizmente, nunca parei de aprender palavras novas, como amigo, viagem, teorema, azul, equação, lábios, céu, variável, vermelho, dor, complexo, abraço, sistema, morte, casa, entropia, chuva e riso, mas é com algum embaraço, que verifico a minha demora na palavra silêncio. Já mudei de casa 4 vezes e visitei 4 continentes, mas ele parece não me largar…

Anna

Ela voltou a escrever. Não esperava que o fizesse. Ela voltou a escrever quando pensei que nos tínhamos despedido para sempre. Não o fizemos de forma clara é certo, mas é facil escrever silêncio.  Juntam-se palavras, todas vazias, todas diferentes, mas que se lêm sempre da mesma maneira: adeus, adeus, adeus. Agora escreve e diz que pensa em mim, que não consegue deixar de pensar em mim, que não para de imaginar a hora em que vamos estar juntos. Aflige-me esta invenção do amor, deixa-me desconfortável. É como se estivesse a ler um amor estrangeiro, que nunca conheci, com o meu nome depois do verbo. Sinto-me deslocado, dividido entre o real das palavras e a ficção que elas inventam. Sou um tipo decente, não gosto de jogos que envolvam facas apontadas ao coração. Então adopto a tese paternalista do amigo distante e digo-lhe: Anna, não vês que o nosso amor é impossível? Anna (nome fictício), vive numa província central da Russia, a norte do Cazaquistão. Possui daquelas belezas primárias e genuínas. Pele branca de neve, lábios vermelhos carnudos como pêssegos maduros e olhos azuis de um lago muito profundo onde apetece enlouquecer. Sofre de um excessivo romantismo apenas possível numa idade que desconhece a desilusão do amor. Eu pelo contrário, já fui o Werther de Goethe, já sofri na pele a dor dos amores impossíveis. Não que tenha deixado de acreditar, mas já cometi o suicídio da ingenuidade e por isso digo-lhe: Anna, não vês que o nosso amor é impossível? Mas ela insiste. O que fazer ? Há quem diga que é possível inventar o amor através dos gestos, como se ao representá-lo, a ficção desse lugar ao real. Mas eu não acredito que Deus esteja no ritual da missa, que exista um processo mecânico ao qual a emoção fosse subserviente, secundária. Portanto, o que fazer ? É tudo um jogo - penso. A vida é um jogo e só nos é pedido que participemos. Então escrevo-lhe uma resposta onde digo: peão para e4. Imediatamente sinto um calafrio, porque me apercebo de que posso perder.

Alexandria, meu amor…

«On ne meurt jamais d’amour, on devient fou» Marguerite Duras

Alexandria, ano de 414 d.C., a noite aproximava-se trazendo a sombra do oriente. Hipátia caminhava em direcção à Biblioteca. Havia uma equivalência expressiva entre a face de Hipátia e a noite que se inflitrava na cidade. Um ar sombrio e pesado que evidenciava um sentimento perturbador, como que um prenúncio de morte.

O porto da cidade transpirava o frenesim de todos os dias. Barcos macedónios e fenícios, aristocratas gregos, soldados romanos, mercadores judeus, e outros visitantes da India e do Sara Africano, toda esta amálgama fervilhava no caldeirão do mercado e exalava uma vida própria como se de um único ser se tratasse, mas esta visão não contagiava Hipátia. Havia já algum tempo que uma angústia inexplicável se tinha apoderado dela. O que a perturbava era não lhe conseguir descobrir a fonte, a causa. E no entanto ela tinha tudo para se sentir a mais realizada e preenchida das mulheres. Ela, a directora da Biblioteca, a única mulher em todos os seus setecentos anos de história! Não lhe tinha sido fácil impôr-se na hierarquia vigente, tipicamente masculina, e só grandes feitos na matemática, na fisica e na astronomia lhe tinham valido aquilo que era o posto mais prestigiado da ciência da época, e no entanto isso não a aliviava. Para fugir ao absurdo de não conseguir justificar este sentimento associava-o á decadência da cidade. Infelizmente, Alexandria já não tinha o fulgor de outrora, já não possuia o titulo de capital do médio oriente, perdendo-o para Constantinopla. Alexandria asfixiava como uma filha presa a um cordão umbilical demasiado estreito, que a sua mãe, Roma, já não podia suportar. Mas apesar de ter perdido o brilho do seu apogeu, a cidade conservava ainda a sua dignidade, com as suas avenidas de trinta metros de largura, com o seu farol de mármore imponente sobre o porto mediterrânico, e com todas as outras pequenas coisas que fazem a alma de uma cidade cosmopolita, mas o seu maior orgulho era a Biblioteca, gloriosa e imponente com as suas colunatas de mármore branco. Um fantástico monumento à sabedoria proclamado pelos reis Ptolomeu às nove musas. Meio milhão de manuscritos em papiro, recolhidos de todo o mundo, contendo as obras dos grandes cérebros dos últimos setecentos anos. Euclides, Pitágoras, Arquimedes, Eratóstenes, Sófocles, Ésquilo, Eurípedes e uma infinidade de outros tinham trabalhado nos seus laboratórios, estudado nos seus jardins e discutido ideias nos seus amplos salões. Hipátia sentia a Biblioteca como sendo o cérebro e o coração do mundo, e tinha razão…

A chama da lamparina construía um pequeno espaço de luz no centro da sala, suficiente para uma mulher se dedicar ao seu trabalho, mas débil demais para fazer diluir as sombras que dançavam na parede. Hipátia escrevia com gestos lentos em cima do papiro quando um criado entrou e esperou ser interpelado. 
- Fala…
- O Arcebispo deseja ser recebido.
Houve um momento de silêncio e o criado iria jurar que as sombras da parede cresceram. Esta visita era inexplicável. Desde que Constantino, o Imperador, tinha proclamado o cristianismo a religião do império, que os cristãos tinham passado de uma atitude discretamente submissa para uma arrogantemente intolerante face às outras religiões, e Cirilo, o Arcebispo da cidade, era conhecido exactamente pelas suas ideias radicais e por antagonizar tudo o que a Biblioteca representava. Segundo ele os mistérios de Deus eram para permanecer mistérios e não para serem desvendados pelos homens, portanto uma visita dele era algo de quase paradoxal. Este paradoxo atingiu Hipátia como uma ironia do destino.
- Diz-lhe que o receberei na sala comum.

Cirilo era de uma corpulência fenomenal. Havia piadas à volta do seu tamanho que diziam que os criados que lhe transportavam a liteira tinham de ser mudados semanalmente devido a problemas de coluna. Cirilo sabia que as pessoas se riam dele pelas costas, tinha sido habituado a isso desde pequeno. Carreguava as lembranças de uma mãe que se ria dele quando era castigado pelo pai com uma chibata. Vivia na certeza de que todo o mundo ria na sua cara e ele desprezava o seu próximo da mesma forma. Na missa, nos sermões, berrava castigos eternos a todos os presentes pelos seus mais ínfimos pecados, prometia-lhes o fogo do inferno, os maiores horrores prestes a consumir as suas almas pecadoras e regozijava-se pelas expressões de terror que conseguia impor na cara dos seus fiéis. Era a sua forma mesquinha de se vingar e de se proteger, pois era difícil rir-se de um dos representantes de Deus na terra. Houve um dia porém que conheceu Hipátia. Tudo se passou num jantar do governador da cidade em que ela tinha comparecido. Um dos bancos cedeu ao seu peso, e Cirilo estatelou-se no chão. Os convidados ficaram vermelhos e pareciam que iam explodir só para conter o riso, só Hipátia ficou serena num sorriso que não era humilhante, mas que lhe pareceu quase de compaixão. Durante muito tempo manteve aquela expressão na memória. O que levava Hipátia a ser diferente das outras pessoas ? O que teria Hipátia visto nele que tivesse ido para além do ridículo da sua figura ? Todos os dias seguintes olhava-se ao espelho com redobrada atenção à procura do que Hipátia tinha visto. A pouco e pouco começou a ver por detrás daquela imagem outro homem com qualidades de que ela poderia ter gostado… Teria sido isso? Teria Hipátia manisfestado afecto com aquelo sorriso ? Não, não seria possivel… Foi então que se apercebeu de que Hipátia sempre tinha recusado todos os seus pretendentes e que eram muitos devido a ela ser uma mulher belíssima e prestigiada pela sua posição. Para Cirilo tudo fez imediatamente sentido. O que poderia levar uma mulher com o poder de ter qualquer homem as seus pés recusá-los a todos, só poderia ser um amor proibido e inconfessável, e ele era esse amor ! Seria impossivel descrever o êxtase que se seguiu a esta conclusão, talvez só comparável ao conflito interior que se instalou de imediato quando viu que tinha devotado a sua vida a Deus e que ela era pagã. Interpretou o silêncio de Hipátia como a sua vontade de não o submeter a uma dúvida de fé. Esse gesto fez com que ele a ficasse a amar ainda mais, um amor doentio permanentemente em conflito entre as suas emoções e o seu dever religioso. O conflito durou muito tempo mas o seu amor por Hipátia crescia de tal forma que seria capaz de tudo por ela, até ser excomungado e largar o sacerdócio. Hoje tinha tomado a decisão de lho dizer em pessoa para que ela não tivesse mais o conflito do silêncio forçado.

Cirilo entrou na sala comum onde Hipátia o esperava, aproximou-se lentamente do centro e compreendeu o silêncio como uma pergunta.
- Hipátia, creio que sabes porque estou aqui… 
As suas faces começaram a ruborizar-se, Hipátia permanecia em silêncio.
- Sei que há muito que esperas que eu tome a iniciativa, mas tem me faltado a coragem… 
As suas mãos suavam, o seu coração batia muito depressa e se não fosse tarde de mais tinha se posto em fuga. Olhava para o chão e só raramente conseguia levantar os olhos para Hipátia não conseguindo encontrar uma luz no seu olhar que lhe desse coragem. Hipátia continuava calada, com aquilo que parecia um pequeno sorriso. Cirilo sentia-se desfalecer e enchendo o peito de ar disse :
- Quero dizer-te que te amo, que te quero, que sei que sentes o mesmo por mim e que permaneces calada apenas pelo respeito ao meu voto de castidade perante Cristo. Quero dizer-te que pensei muito, pensei que nunca seria capaz de abandonar tudo isto, por nada neste mundo, abandonar o poder, os privilégios… Mas por ti seria capaz de tudo, quero dizer-te que por ti deixo o sacerdócio e entrego-me de corpo e alma a este nosso amor…
Só o silêncio se lhe seguiu… Hipátia permanecia no centro da sala numa pose esfíngica, mas revelava um olhar de uma subtil perplexidade… Cirilo pensava desfalecer, cada segundo tinha o peso da eternidade, as pernas tremiam, as mãos suavam, ofegava. Por fim Hipátia falou.
- Cirilo, meu bom Cirilo, que ideias essas que você constroi. Não vê que seria impossível eu amá-lo, não vê que eu já pertenço a outro amor.
Cirilo só se conseguiu manter de pé devido a uma força sobre-humana. Não sabia qual tinha sido o maior choque, saber que afinal Hipátia não o amava ou saber que afinal, a mulher desejada por todos os homens de Alexandria pertencia a alguém. Quem seria esse Adónis, esse Deus, esse ser tão perfeito que tinha conseguido cativar e prender o coração de Hipátia. 
- Vem Cirilo quero apresentar-te o meu amor.
Cirilo não sabia se era capaz de se mexer. Ali na biblioteca, esse ser encontrava-se ali ! Arrastou-se atrás de Hipátia, sentindo todo o peso do mundo no corpo, arrastava-se mesmo, sentindo que iria ser apresentado a um autêntico Deus encarnado. Entrou na sala dos manuscritos e Hipátia já esperava por ele. Hipátia abriu os braços e disse num tom solene.
- Este é o meu amor, Cirilo. A procura da verdade, o conhecimento e os papiros com as obras dos grandes génios que por aqui passaram. Como pensarias tu que eu seria capaz de me entregar a outro quando o meu coração há já muito lhes pertence.
Cirilo ofegava. Não… Papiros ! Manuscritos ! Conhecimento ! Que brincadeira era esta, que infâmia que… Hipátia trocava-o por papiros… Era impossível, tinha de existir alguém, um ser, não livros !!!
- Como podes tu brincar com o meu coração Hipátia, não tu que sempre me compreendeste, não tu… Que verdade é esta de que me falas, verdade em manuscritos pagãos, não me podes falar assim, tu sabes que não me podes falar assim… Sabes que a verdade já existe…
Cirilo suava torrencialmente, quase desfalecia, saber que Hipátia nunca seria dele por causa de uns manuscritos, ainda por cima manuscritos não cristãos e ainda tinha o descaramento de lhes chamar verdade… Verdade !!! Cirilo, chorava como uma criança, as lágrimas corriam-lhe pela face, caiu finalmente por terra de joelhos. Introduziu a mão no colo da batina e com uma expressão de raiva submissa mostrou um livro a Hipátia.
- A verdade !!! Esta é que é a verdade !!!
Os olhos de Hipátia brilharam quando viram o livro nas mãos de Cirilo. Um olhar a um criado foi o suficiente para manisfestar as suas intenções. O criado ajoelhou-se perto de cirilo e retirou-lhe cuidadosamente o livro das mãos, e na mesma posição entregou-o a Hipátia, que o agarrou numa atitude da mais admirável curiosidade. A cara de Hipátia tinha se transformado na presença daquele livro, enquanto página a página o desfolhava. Havia um brilho de admiração, uma alegria serena, só comparável à curiosidade das crianças. Cirilo, julgou contemplar um anjo. No fim de algum tempo Hipátia emitiu um suspiro.
- A Bíblia… Sabes Cirilo já li este livro a algum tempo e é realmente interessante, de facto tenho aí os manuscritos originais de Mateus e Paulo, se os quiseres ler estão em melhor estado do que estes…
Ouviu-se subitamente um grito que nada parecia ter de humano. Cirilo tinha se levantado e fugido. A escuridão é a mãe dos que fogem e Cirilo fugia. Queria estar o mais longe possível da Biblioteca, o mais longe possível de Hipátia e do riso que julgava ouvir na sua mente, um riso que nunca mais haveria de o largar…

Os meses passaram e ninguem chegou a saber o que realmente tinha acontecido naquela noite. De facto, eram muito poucos o que se importavam ou sabiam o que se fazia dentro da Biblioteca. Nas igrejas, os sermões diziam que dentro dela se adoravam outros deuses, que se escarnecia de Cristo e adoravam livros demoníacos. As contestações foram durante o tempo subindo de tom, alimentadas pelas superstições, pela mesquinhez e sobretudo pela loucura de Cirilo, e, quando um dia se juntou uma multidão para pôr fogo à Biblioteca, não houve ninguem para a defender. Quanto a Hipátia… entraram nos seus aposentos, arrancaram-lhe a roupa e separaram-lhe a carne dos ossos com conchas de abalone. Ninguem pareceu notar que eram todos partidários fervorosos do Arcebispo, ninguem notou o próprio riso de Cirilo enquanto os livros dos génios que lhe tinham roubado a felicidade ardiam em chamas…

Hipátia foi esquecida com as cinzas da Biblioteca, Cirilo foi santificado. Foram necessários 15 séculos para redescobrir a ciência e a arte de Alexandria. 15 longos séculos…

O teu toque pessoal

«O céu por cima do porto tinha a cor de uma aparelho de TV sintonizado num canal sem emissão.» William Gibson em Neuromancer

Estou na cidade-torre de Nebeth, sentado à mesa, olhando para a janela. Não há uma cadeira fora do lugar, não há um grão de pó no ar, não há palavras no papel de carta à minha frente. Tudo está perfeito e eu estou morto.

Há cerca de 4 anos que me mudei para esta cidade. Lembro-me que quando vim para cá, lhe ter dito «É só por um tempo…». Lembro a dor no peito, ao mesmo tempo que o dizia, a mesma dor espelhada nos olhos azuis com que ela me fitava. É estranho sentir assim no peito, uma voz do futuro, um sussurro de aviso. As nossas mensagens, foram-se tornando cada vez mais vagas, mais espaçadas, até que um dia pararam. Sem aviso e sem surpresa, de uma forma simples, como se começasse a chover… Não sei se foi ela ou se fui eu. Não sei se isso importa. Lembro-me de lhe ter dito «Voltarei para te buscar e depois casaremos.». Esta lembrança, hoje, provoca-me um sorriso triste. Como se deixar morrer a inocência, fosse condição essencial de sobrevivência.

Hoje, contemplo o rectângulo na parede a que chamam de janela no 740º andar e continuo sem saber o que é que correu mal. O plano era simples. Um trabalho honesto, umas poupanças. Abriria um negócio meu, talvez um daqueles restaurantes de comida caseira, com um aspecto simpático, algures entre o 400º ou 500º andar, na zona comercial média e ela viria ter comigo. O tempo tinha passado, a vida não me tinha corrido bem, e eu continuava sem perspectivas, sem futuro, e sem saber o que fazer desta vida absurda. Sentia-me como se a vida me tivesse traído.

Aproximei-me da janela, e olhei para as nuvens lá em baixo. Pela sua cor via-se bem que chovia. Era uma das vantagens de não ser rico. Era-se obrigado a morar nos “Cubos”. Apartamentos de uma única divisão, acima do 700º andar. Ao menos aqui nunca chovia. Era um sol eterno, sem estações que me entrava pela janela. Um sol frio, asséptico, que fazia irradiar a excessiva limpeza imposta pelos robots domésticos. Era a política da cidade, diziam. Era a busca ilusória da perfeição, pensava eu. Já tinha desistido de tentar ver alguma coisa suja, partida e fora do lugar. Era tudo imediatamente limpo, substituído e descontado no meu ordenado. Tentei imaginar como seria a vida fora das cidades-torre. Como seria a vida no chão, 2.2 quilómetros abaixo de mim. Tentei imaginar terra, sujidade, chuva, árvores. Eu trabalhava comia e dormia sempre acima do 250º andar. Só uma vez tinha descido abaixo do 100º, e foi quando um amigo meu me levou a fazer um pequeno serviço para um tipo rico que era amigo do seu patrão. A vida lá em baixo era bem diferente. Grandes corredores, salas enormes, soube que existia mesmo uma pista de corridas no 41º andar, embora eu nunca a tivesse visto. Era difícil ter acesso ás zonas ricas. O sistema de segurança da cidade-torre restringia os acessos de uma forma eficaz e impiedosa, e eu só tinha dinheiro para um passe amarelo.

O intercom holográfico acendeu-se. Uma cara (sempre a mesma) a avisar-me de que amanhã seria efectuada uma revista médica ao meu andar. Uma forma de prevenir e evitar doenças, diziam eles… Periodicamente, os médicos vinham, tiravam-me sangue, urina e esperma. Inspeccionavam todo o meu apartamento e determinavam por análises se eu era “confiável” ou não. Ser “confiável” significava não ser um risco para as 40 milhões de pessoas que habitavam a cidade-torre. O risco não era só medido em termos médicos, mas também sob a forma de qualquer conspiração que eu pudesse arquitectar. Isto via-se pela forma como os pretensos médicos me questionavam sob qualquer pertence que eu não tivesse registado, ou sobre qualquer acção que tivesse escapado à monitorizada rotina diária.

A única centelha de vida que eu ainda sentia, era uma revolta construída com as peças desta conformidade diária, continuamente recalcada, negada para as zonas mais sombrias do ser, que teimava em se afirmar. Era um grito nascente. A vontade de ser declarado “não-confiável” e expulso. Não ser mais este pedaço de carne morta que vegeta num caixão de vidro e de aço excessivamente limpo. Eu queria… Eu queria parar de chover.

Lá fora, o Sol frio e asséptico, contrastava com a chuva cá dentro da minha alma. A minha vida era agora feita destes pequenos momentos onde sentia nos ossos todo o peso da existência. Uma espécie de apatia, que desfocava os significados que tão laboriosamente tinha construído para a minha vida, e que transformava tudo num indistinto branco existencial. O papel de carta permanecia em cima da mesa. Num presente onde as comunicações são omniscientes o uso de papel era antiquado e excessivamente caro, mas eu sabia que isso a faria sentir-se especial. O toque do papel nos dedos, as palavras escritas por mãos ávidas, sentimentos que fluiam numa dança de dedos para a tinta no papel. Havia como que uma cumplicidade entre as ideias e os gestos, a unidade numa diferença expressiva, como quem sente com uma extensão de símbolos. Eu dizia «A minha caligrafia ilegível» Ela dizia «O teu toque pessoal…» Olhei para a folha de papel em branco, peguei na caneta e comecei a escrever…

Vitamina A.mor

Sofia chegou a casa, e abriu a embalagem que o médico tinha receitado. Este novo medicamente iria concerteza ajudá-la a melhorar, a ultrapassar esta doença que a afectava a ela e outros milhões de pessoas pelo mundo fora. A epidemia tinha sido detectada uns anos antes, mas não houve nada que a fizesse parar, e agora afectava a humanidade inteira… Os jornais falavam já da maior epidemia do século XXI, apesar de este ter apenas começado..

Abriu a caixa, que tinha em letras grandes e vermelhas escrito “Vitamina A.mor”, pegou no copo de água, e retirou a capsula da embalagem e tomou-a sem qualquer hesitação. Foi só depois que resolveu ler o folheto de instruções…

«POSOLOGIA:

Tomar uma vez por dia para combater a melancolia.

INDICAÇÕES:

Esta vitamina combate a falta de amor na vida pessoal através do uso de beta-bloqueantes que eliminam uma série de inibidores, nomeadamente:

- Permite-nos sermos amados, sem dispender o esforço de amar de volta.

- Permite-nos sermos amados sem dispender o esforço de nos amarmos a nós próprios.

- Permite-nos amar ideais e fantasias, em vez de pessoas reais.

- Permite-nos sermos passivos, e esperar que o amor aconteça sem nada fazer.

- Permite-nos não termos medo de amar.

SUSBTÂNCIAS ACTIVAS:

- Contém um poderoso beta-bloqueante que inibe nos outros os nossos defeitos e aumenta as nossas qualidades, para combater a nossa falta de auto-estima.

- Contém uma feronoma que força o objecto de desejo a nos amar incondicionalmente e a tomar sempre a iniciativa., para não termos que fazer nada e satisfazer assim os nossos desejos egoístas.

- Contém um poderoso analgésico que inibe em nós o medo de amar, impedindo reacções absurdas para afastar aquilo que mais queremos.

- Contém um alucinogénico que projecta as nossas fantasias em qualquer pessoa, para evitar o trabalho de termos de as conhecer e amar como elas são.

CONTRA-INDICAÇÕES

- Foi detectado em alguns casos reacções adversas, como cegueira, infelicidade e morte.»

Depois de ler o folheto, Sofia achou que o risco valia a pena, desde que o medicamento fizesse efeito rapidamente, porque já não podia viver mais assim. Sentou-se no sofá, e ligou o rádio… Por coincidência ou não, Vitor Espadinha cantarolava… “O amor é uma doença, quando pensamos nele como a nossa cura”

O Medo

«vivemos na precisão milimétrica da cela. (…) permanecemos imobilizados sob a densa corda de luz que nos enforca a secreta e branca escuridão da alma.» Al Berto em O Medo.

«Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz.» Platão

Levantou-se e acendeu mais um cigarro. Havia já vários dias que a Liz não telefonava. A última vez que o telefone tocou, ele estava deitado a olhar para o tecto, a contar os segundos que o telefone demorava a voltar ao silêncio. Dezassete segundos da primeira vez, vinte e cinco da segunda, e oito na terceira.  A vida de Richard, resumia-se agora a contar os eventos do seu dia, de forma metódica e precisa, que depois anotava num pequeno caderno de capa negra. Essa aritmética existencial, dava-lhe, segundo ele, o controlo final sobre a ordem das coisas, e permitia-lhe dessa forma, salvar o dia do caos. Sabia que ontem tinha fumado vinte e quatro cigarros, que tinha ficado deitado na cama doze horas e cinquenta e três minutos, e que entre outras coisas, a vizinha tinha ido nove vezes à rua, duas das quais em chinelos. Richard não tinha sido sempre assim. Antes de Brenda ter entrado na sua vida, ele era um homem aberto e feliz. No entanto, possuia na sua personalidade um traço narcisista, que fez com que ele tenha sido, entre os seus amigos, o último a conhecer o amor. Foi até, de forma divertida, que viu os seus amigos, apaixonarem-se um a um, a caírem de amores por mulheres que ele achava tontas infantis. Achava-se superior a isso, ele iria esperar por uma mulher que o merecesse. Com o passar dos anos, como essa mulher não aparecia, essa crença assumiu em Richard, o peso grave do destino, que se revelou finalmente um dia, na conjunção de uma música e de um espelho. Tudo se passou na casa de praia de um amigo de universidade. Ao voltar da cozinha, deparou-se com um enorme espelho do tamanho da parede, e com o reflexo irreal de uma mulher de olhos azuis e cabelos negros que o fitava com um sorriso de mona lisa, numa imagem que tinha o tom onírico de uma aparição. Na rádio, uma cantora negra, de voz profunda e doce, cantava «black is the color, of my true love hair». É costume dizer que as coincidências, são a forma de Deus manter o anonimato, por isso, quando Richard se virou e viu Brenda, sabia que tinha encontrado a mulher da sua vida. Para Richard, o amor por eles vivido foi em todas formas épico, digno de todos os grandes amores da história. Romeu e Julieta, Tristão e Isolda, Orpheu e Eurídice, Ulisses e Penélope tinham sido apenas prenúncios deste grande amor. Foi como se um dique tivesse rebentado dentro de Richard e anos de espera tinham permitido a esse rio, que ele mantinha guardado dentro dele, encontrar o seu mar. A pouco e pouco, toda as suas experiências ficaram impregnadas com a magia de Brenda. O mar e o céu, copiavam a cor dos seus olhos, a noite a dos seus cabelos, o nevoeiro de Novembro a suavidade da sua pele. Ela era o seu primeiro pensamento ao acordar, o único durante o dia, e o último ao deitar, até que Brenda se tornou para ele, maior que a própria vida. Quando um dia, Brenda, teve mudar de cidade, ele jurou-lhe que não haveria quilómetros no mundo capazes de acabar com o seu amor. As viagens de comboio, eram feitas com um sorriso, porque no destino, estava Brenda. Porém, num dia de Janeiro, uma Brenda distante recusou um convite para estarem juntos, com o pretexto de que estava frio, e esse acto, aparentemente banal, plantou na alma de Richard a dúvida se Brenda continuava a acreditar nesse amor, e por consequência a semente venenosa do Medo. Não conseguiu pensar em mais nada durante os dias seguintes. Essa semente cresceu e começou a envenenar-lhe a alma. Para Richard, a ideia de perder Brenda era inconcebível, era pior do que perder a própria vida, por isso, nos dias seguintes, redobrou os telefonemas e as cartas com juras de amor, numa atitude obsessiva crescente, que pelo excesso, mostraram a Brenda, que esses actos, já não eram movidos pelo amor, mas por algo muito mais sombrio, o Medo de perder esse amor. Até que um dia, numa das visitas, Brenda disse-lhe que ele estava diferente, e sem qualquer aviso começou a chorar. Uma semana depois deixou de responder aos telefonemas e às cartas que ele lhe enviava. Primeiro, Richard recusou-se a acreditar que Brenda, tinha desistido desse amor, provavelmente o seu telefone estava avariado, e obviamente que os correios eram uns incompetentes, até que percebeu a evidência da sua triste realidade, e isso fê-lo cair na mais dolorosa depressão. A dor foi tão forte que abalou as estruturas mais intimas do seu ser. Esteve semanas fechado em casa, emagreceu perigosamente, deixou a barba e o cabelo crescer numa negligência assustadora, enquanto se afundava num vazio e desespero sem fundo. O tempo passou, e Richard finalmente recuperou, mas nunca mais parou de ter Medo. Essa sombra, tinha ficado gravada na sua alma, como ferro em brasa, através da dor que tinha experimentado. O Medo dessa dor, fazia com que ele evitasse olhar qualquer mulher nos olhos mais do que uns segundos, com medo das implicações, e se resignasse com a possibilidade de nunca mais voltar a amar. Passou a viver uma existência solitária, num pequeno apartamento junto ao rio, acompanhado do seu gato Bonaparte. Até que um dia conheceu Liz, que tinha a característica invulgar de encontrar a versão mais cómica da vida, em qualquer situação. Nos momentos onde Richard provocava silenciosos embaraçosos, ou tentava fugir de um contacto mais humano, Liz rematava com algo que punha Richard invariavelmente a rir. O riso é uma força poderosa, para derreter o gelo do Medo, e isso fez com Richard se sentisse confortável quando estava com ela. Começaram a passar muito tempo juntos, até que um dia, ao entrar no elevador, Liz virou-se para trás e deu-lhe um beijo nos lábios. A surpresa fez com que ele não reagisse, ficou apenas a vê-la sorrir, enquanto a porta do elevador fechava. Nos dias seguintes fechou-se em casa, telefonou para o escritório a dizer que estava doente, e não respondia a ninguém, nem aos toques da campainha do prédio, nem aos telefonemas. O Medo revelava a sua faceta monstruosa. Ele via-se incapaz de enfrentar Liz, com medo do que pudesse acontecer, com medo de a poder amar, com medo de voltar a sofrer, foi por isso que quando Liz telefonou outra vez, ele soube que o medo o impediria de atender, então começou a contar os segundos até ela desistir. Um, dois, três, quatro…

A página em branco

Bonifácio olhou para a página em branco em cima da mesa com um misto de agrado e de repulsa. Agradava-lhe saber que era o fim, mas sentia repulsa pela necessidade de explicar porque se ia matar. Essa explicação parecia-lhe uma violência maior do que o acto em si, mas tinha de explicar à sua mulher e aos seus dois filhos porque terminar a sua vida era, (tendo em conta toda a luz das causas exteriores) a melhor opção. Por isso, mais por resignação do que determinação, sentou-se para escrever a sua carta de suicídio. No entanto, apesar da clareza da sua decisão, as palavras não lhe saíam. Tentou invocar as razões que o levavam a esta decisão radical e a dor invadiu-lhe novamente o peito. Todos os erros que cometeu em acções, palavras e pensamentos. Os erros que cometeu a tentar reparar os erros que tinha cometido. As desculpas que à força de tanto serem repetidas tornaram-se elas próprias um erro. Sempre juntando erros em cima de mais erros numa pilha crescente até que a própria ideia de estar vivo se apresentou como um enorme erro. Tinha percebido que a perfeição não se atinge quando não há mais desculpas a acrescentar, mas sim quando não há mais erros a retirar. E por isso decidiu retirar-se do mundo dos vivos. Oh como ele queria apagar tudo, como ele desejava voltar atrás, ao estado puro da inocência, onde as memórias não lhe doíam tanto, onde elas não lhe provocavam o rio de lágrimas que começava novamente a cair-lhe pela face… Oh Eternal Sunshine of the Spotless Mind! Tinha percebido tudo, mas agora era tarde demais. Com a emoção a tremer-lhe nas mãos, começou a escrever: “Eu queria ser uma página em branco”. Quando acabou a frase, olhou para o que tinha feito. Aquilo que era uma página em branco estava agora molhada de lágrimas e de uns rabiscos ilegíveis. Percebeu que tinha cometido mais um erro, e que essa era a metáfora da sua vida. Enxugou as lágrimas, enviou a página para o lixo e colocou outra imaculada no seu lugar. Encostou o cano da arma à têmpora e puxou o gatilho.

trajectória inevitável

Escrevo-te no ombro gigante do mundo, e procuro a tua forma num tremendo silêncio, como se uma sílaba madura pudesse tocar o vento. Vejo-te chegar no chão aberto, sobre um mar obscuro onde o som ferve, por entre as ondas sensíveis. Estamos imersos numa trajectoria inevitável. Na minha cabeça em chamas, explode o teu nome e nasce uma chuva de sangue no mar selvagem. Ali, no ponto exacto onde o coração dispara, os olhos suspensos, embarcam no sonho do oriente. Abrimos os lábios onde sopram linguas liquidas, e um amor nasce como um relâmpago numa tarde clara.

poema circular

Durante a maior parte do dia, esperamos junto à janela, banhados pela luz límpida de Março, enquanto o pai, num frenesim de pássaro louco, esperava junto à porta, que lhe entregassem o rebento, um corpo que ele sabia, que iria ser inseguro, cheio de incertezas e fremidos, banhado no sangue raiz da sua mãe, que, qual arvore de fruto, abria as pernas na sala de parto, com as raízes espetadas no céu, esperávamos o espaço de um milagre, até que os gritos maternos se misturaram com uns gritos incógnitos, tímidos, voz confusa no vazio estilhaçado do silêncio daquele corredor de fim do mundo, o médico abriu a porta e num bocejo de compassos, disse que era um rapaz, que a enfermeira entregou a um pai lívido de um terror magnífico, ele pegou no corpo, que era o princípio regulador do amor, uma distorção magnífica do espaço na forma de um poema vivo, e, que apesar de não ser mais do que um vaso obscuro de sangue quebrado por uma violência solar, era o prenúncio de algo mágico, era a metamorfose voluntária e subtil do amor, a transformação de um poema na brisa que sopra por dentro das folhas de Março, que suspensas nas árvores frondosas do rio da vida, cantam todos os milagres, essa metamorfose era por isso um intenso acto de amor, que os olhos felizes da mãe contemplavam, enquanto pousavam na infatigável paz das coisas exteriores, e o pai, imóvel, se segurava a si mesmo. Foi só anos mais tarde que o voltamos a ver, essa metamorfose era agora um homem feito, que trabalhava a terra que haveria de semear, cujo o suor do rosto moreno não escondia o olhar sereno, soubemos depois que ele se perdeu de amores pela filha do capitão, que a perseguiu até ao prado onde pastavam os cavalos, e escondido pela erva alta tocou pela primeira vez nos seus cabelos louros, bebeu dos seus lábios um sabor a mar, e navegou nos seios brancos e leitosos, que ela despiu como duas luas abertas, e ele, absorto numa primeira lição de amor, procurou o seu ventre coberto por flores de água, onde haveria de semear a semente mais pura e mais bela que conseguiria imaginar, há quem diga que o ouviu gritar, como ave tímida em fúria de azul, foi só mais tarde que soubemos, pela filha do capitão, que a semente se tinha transformado num outro poema, pedra estrela que aprendia devagar os desígnios do espaço, era a melodia perpétua do amor, fruto multiplicado pela consecutiva promessa de um poema circular. O poema tinha finalmente aprendido a metamorfose da eternidade…



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