February 2010
2 posts
O Poema Contínuo...
A morte acesa no rosto de mármore, ilumina o silêncio branco. São precisas palavras vivas, obscuras, incendiárias. Palavras como crimes, violência solar flores nos escombros do mito antigo que defendam o mistério complexo e irreal - imaginário. É preciso uma luz que atravesse o chumbo grito de águia que quebre o silêncio para iluminar as veias da revolução. O seu código secreto, escrito a sangue...
Feb 22nd
Auto-Retrato
Se tivesse de escolher uma palavra, seria, perplexidade. Descobri-a muito cedo, numa tarde de praia adolescente, onde um livro me sussurrou a dimensão do céu. De então para cá, tem sido um desfilar de íntimos espantos. Desde muito cedo tive a prova de universos paralelos, até à universidade vivi em 12 escolas diferentes, muitas delas separadas por países de distância, talvez por isso me tenha...
Feb 5th
January 2010
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Anna
Ela voltou a escrever. Não esperava que o fizesse. Ela voltou a escrever quando pensei que nos tínhamos despedido para sempre. Não o fizemos de forma clara é certo, mas é facil escrever silêncio.  Juntam-se palavras, todas vazias, todas diferentes, mas que se lêm sempre da mesma maneira: adeus, adeus, adeus. Agora escreve e diz que pensa em mim, que não consegue deixar de pensar em mim, que não...
Jan 29th
Alexandria, meu amor...
«On ne meurt jamais d’amour, on devient fou» Marguerite Duras Alexandria, ano de 414 d.C., a noite aproximava-se trazendo a sombra do oriente. Hipátia caminhava em direcção à Biblioteca. Havia uma equivalência expressiva entre a face de Hipátia e a noite que se inflitrava na cidade. Um ar sombrio e pesado que evidenciava um sentimento perturbador, como que um prenúncio de morte. O porto da...
Jan 23rd
O teu toque pessoal
«O céu por cima do porto tinha a cor de uma aparelho de TV sintonizado num canal sem emissão.» William Gibson em Neuromancer Estou na cidade-torre de Nebeth, sentado à mesa, olhando para a janela. Não há uma cadeira fora do lugar, não há um grão de pó no ar, não há palavras no papel de carta à minha frente. Tudo está perfeito e eu estou morto. Há cerca de 4 anos que me mudei para esta cidade....
Jan 23rd
December 2009
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Vitamina A.mor
Sofia chegou a casa, e abriu a embalagem que o médico tinha receitado. Este novo medicamente iria concerteza ajudá-la a melhorar, a ultrapassar esta doença que a afectava a ela e outros milhões de pessoas pelo mundo fora. A epidemia tinha sido detectada uns anos antes, mas não houve nada que a fizesse parar, e agora afectava a humanidade inteira… Os jornais falavam já da maior epidemia do...
Dec 18th
November 2009
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O Medo
«vivemos na precisão milimétrica da cela. (…) permanecemos imobilizados sob a densa corda de luz que nos enforca a secreta e branca escuridão da alma.» Al Berto em O Medo. «Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz.» Platão Levantou-se e acendeu mais um cigarro. Havia já vários dias que a Liz não telefonava. A...
Nov 11th
October 2009
16 posts
A página em branco
Bonifácio olhou para a página em branco em cima da mesa com um misto de agrado e de repulsa. Agradava-lhe saber que era o fim, mas sentia repulsa pela necessidade de explicar porque se ia matar. Essa explicação parecia-lhe uma violência maior do que o acto em si, mas tinha de explicar à sua mulher e aos seus dois filhos porque terminar a sua vida era, (tendo em conta toda a luz das causas...
Oct 31st
trajectória inevitável
Escrevo-te no ombro gigante do mundo, e procuro a tua forma num tremendo silêncio, como se uma sílaba madura pudesse tocar o vento. Vejo-te chegar no chão aberto, sobre um mar obscuro onde o som ferve, por entre as ondas sensíveis. Estamos imersos numa trajectoria inevitável. Na minha cabeça em chamas, explode o teu nome e nasce uma chuva de sangue no mar selvagem. Ali, no ponto exacto onde o...
Oct 16th
poema circular
Durante a maior parte do dia, esperamos junto à janela, banhados pela luz límpida de Março, enquanto o pai, num frenesim de pássaro louco, esperava junto à porta, que lhe entregassem o rebento, um corpo que ele sabia, que iria ser inseguro, cheio de incertezas e fremidos, banhado no sangue raiz da sua mãe, que, qual arvore de fruto, abria as pernas na sala de parto, com as raízes espetadas no céu,...
Oct 16th
partida no mar
Existe um compasso de esperas, entre a partida e o teu olhar de pássaro coberto de medo, existe num tempo inexacto, a aridez indefinida de um adeus, vejo-te com a mão branca de nuvem, em aceno sombrio, estou em fuga para uma terra poeirenta e negra, tudo o que eu disser são lábios de água, tudo o que eu disser é uma memória inanimada (mas digo) procura uma forma não inventada, procura uma ave...
Oct 16th
paleta filosófica
Azul. Nasci de espanto. Com um grito, quebrei o vidro do silêncio e os relógios acordaram o meu corpo incógnito. Foi um corpo violento, flor colhida num ventre de fábulas puras. Um astro caído, poeira de estrelas, ainda (e sempre) o limite indefinido da pele ou a inexplicável transparência da matéria. Minha mãe estendeu as mãos ao lençol azul. Fiquei dentro do mar, do céu, e a cor suspensa nos...
Oct 16th
o fluxo da consciência
Sim, há na percepção que tenho de ti, uma visão turva, enevoada por todas as considerações minuciosas e sistemáticas de um programa de apreensão mental baseado em equívocos, e no entanto… Há uma clareza na forma em como apareces nas cores, e depois nos espaços da janela, e na luz, envolvidas em tramas e filigranas de poeira transcendental, sim eu sei, é um absoluto de uma beleza aterradora e...
Oct 16th
o átrio do voo
Ela sacudiu a mecha de cabelo do rosto, inclinou-se na minha direcção. «Então, não respondes?». O Sol desaparecia, mas ainda havia uma luz laranja reflectida nos seus olhos escuros, sorria divertida, com o seu desafio provocador. «É um pergunta impossível» disse-lhe «Eu sei, mas responde na mesma» disse ela «O que é para ti o amor?». Olhei para o relógio, para os horários do painel, havia tantas...
Oct 16th
o amor em fuga
Existem noites quentes e fugidias onde os corpos se fundem em desejos de lava. São corpos incoerentes, quebrados por vontade. Horizontes encobertos nos lençóis da mentira… Nasce o sol na chama da fogueira, e os amantes queimam, em mentiras inacabadas, as palavras febris que aprenderam, dando liberdade á metamorfose da vida. Palavras como folhas levadas pelo vento, abafadas pelo ritmo cego do...
Oct 16th
o jardim zen
A morte não é um ponto, é uma virgula. Mas no silêncio infinito dos teus olhos, o grito da ideia passa sem ser notado. Já não é o abismo que te perturba, nem a dor ou a fúria de seres frágil, é simplesmente a cor dos olhos fechados. E esse negro, é um ponto de gravidade, que suportas como correntes presas à tua alma. É o insustentável peso de não seres, de não possuíres a crueldade necessária....
Oct 16th
a cidade dos mortos
Há dias em que tenho a sensação curiosa de nunca ter deixado a cidade dos mortos. Sinto-o na espuma dos dias, na opressão de um ar fétido e tenebroso, destruidor de corpos e de realidades invisíveis. Sinto-o nos olhos em fuga, nas palavras fora do tom, na melodia gasta e decadente de um funeral. Sinto-o nos limites que florescem como flores negras de cinza, por entre os passos apressados, em...
Oct 16th
geometria da banalidade
Os matemáticos reuniram-se com o conselho da republica. Era urgente o controlo da epidemia, que medida no esquadro métrico, ostentava a dimensão de uma catástrofe. Os sintomas eram corações negros e lucidez branca. Identificaram a origem num individuo cinzento que resolveu usar uma gravata amarela. Um acto original que criou uma dor aguda nas pessoas banais, limitadas pela incapacidade de escolha...
Oct 16th
melancolia
Ela é a espuma dos dias… Enorme como uma montanha branca. É da cor da ausência e tem a forma, de todos os rostos desconhecidos. Ela é o vazio por dentro do peito, e o saber do vazio. O mundo ao contrário, as lágrimas, com um sorriso nos lábios. Ela é o seu próprio limbo, persistente como uma rocha, porque é feita de uma luz sólida. Uma barreira invisível, presente em todas as noites...
Oct 16th
desassosego
Hoje é um daqueles dias, inquietos, arteriais, onde os segundos parecem saltar do relógio, é um dia do desassossego, queima-te os pés se os deixares tocar o chão, desaparecem os sítios de chegada, ficam apenas os de partida, já não há casas iniciais de conforto, nem sofás de anestesia colados à televisão, há apenas as grandes planicies, a pele morna do vento, o grito sem eco por dentro do peito,...
Oct 16th
darkness and wonder
Vou falar-te sobre o vento, e sobre uma chuva densa de sangue, dentro de uma nação em guerra. A chuva era um martelo de chumbo, esmagava os ossos dos mortos. O vento erguia os restos para apagar a memória. Era uma nação flutuante, cheia de chamas e ferro. As pessoas ardiam em gritos, para dentro de um crime. Nessa nação existia uma planta do tamanho do coração, que se podia cortar ao meio, para...
Oct 15th
Amor Oblíquo
Atravessa este quarto o meu sonho de um amor infinito, e o barulho da chuva lá fora desenha um corpo de água. As gotas de chuva inventam as curvas da sua nudez, e o dia sombrio é a memória de uma manhã de Sol dentro da minha alma. Houve um tempo, em que tinha as mãos abertas sobre a pele de um corpo assim liquido. Hoje existe apenas este quarto vazio, e todos os caminhos quebrados. Estou preso em...
Oct 14th
saudade
A saudade é uma árvore de sangue. Uma árvore feita de seiva acesa por dentro das veias, com ramos de dor que ocupam o peito, e folhas que sobem à garganta, de onde brotam flores de silêncio. Todas as emoções genuínas são árvores de sangue, mas ao contrário do ódio e do amor, a saudade não cresce na luz do objecto, mas na sombra da sua ausência. É por isso uma árvore paradoxal. Cresce por dentro da...
Oct 8th