Karmaleão
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partida no mar

Existe um compasso de esperas, entre a partida e o teu olhar de pássaro coberto de medo, existe num tempo inexacto, a aridez indefinida de um adeus, vejo-te com a mão branca de nuvem, em aceno sombrio, estou em fuga para uma terra poeirenta e negra, tudo o que eu disser são lábios de água, tudo o que eu disser é uma memória inanimada (mas digo) procura uma forma não inventada, procura uma ave frágil que seja o lugar da minha ausência, um segredo sussurado no abraço das tardes, um corpo repleto de mágica violência, ignoro a distância que tenho entre o sangue e o fumo, ignoro a luminosidade possível das velas pandas, mas o vento acende-se e os teus olhos apagam-se, vejo o barco inclinar-se em excessos de água, insinua-se um verbo imperfeito, e as nuvens brancas rasgam os tecidos da inevitável despedida.

paleta filosófica

Azul. Nasci de espanto. Com um grito, quebrei o vidro do silêncio e os relógios acordaram o meu corpo incógnito. Foi um corpo violento, flor colhida num ventre de fábulas puras. Um astro caído, poeira de estrelas, ainda (e sempre) o limite indefinido da pele ou a inexplicável transparência da matéria. Minha mãe estendeu as mãos ao lençol azul. Fiquei dentro do mar, do céu, e a cor suspensa nos olhos.

Vermelho. Abro a boca e beijo a nudez do seu corpo terra. A sua pele de verão é fruto colhido pela minha boca d’água. Sou um trabalhador pobre, e com o arado perfuro a sua vinha na manhã luminosa de Setembro. Invento a vida arterial, plano cruzado do amor, poema dionísico à embriaguez, enquanto bebo o vermelho do sangue do vinho, e morro no seu sexo.

Preto. Respirarei o ar denso, em golfadas lentas e amargas. No ar, desenharei um círculo de terra e tábuas mortas, que darão fundo às ruínas silenciosas. Será um rio sólido, que estremecerá a tangente imóvel. Gritarei o silêncio, mas nem luz, nem vida me responderão. O meu fato será preto, e a porta impiedosa do meu quarto (sem janelas) convidará a ficar eternamente…

o fluxo da consciência

Sim, há na percepção que tenho de ti, uma visão turva, enevoada por todas as considerações minuciosas e sistemáticas de um programa de apreensão mental baseado em equívocos, e no entanto… Há uma clareza na forma em como apareces nas cores, e depois nos espaços da janela, e na luz, envolvidas em tramas e filigranas de poeira transcendental, sim eu sei, é um absoluto de uma beleza aterradora e duvidosa, é um pouco com as estrelas de baixa magnitude, que não se podem olhar de frente, vejo-as pelo canto do olho, fora da zona cega da retina, onde tenho uma aproximação sensorial que me diz que sim, que essa sensação não é uma ilusão, e no entanto… Quanto tento um foco mais definido, um foco que revele toda a dimensão da tua existência, vejo-me preso à escuridão e à dúvida existencial se essa estrela não será uma ilusão, sim eu sei, sou uma pessoa metódica, fruto de uma experiência positivista feita mais de fé do que de certezas, sim eu sei que há nessa construção milimétrica um fundo utópico que é profundamente libertadora, e no entanto… Há um presente contínuo no fluxo da consciência que me revela uma realidade bem mais sombria, lembro-me perfeitamente dos episódios transcendentais, do amor, da alegria, da energia presente na memória que ainda é suficiente para arrancar uma expressão presente de júbilo, e sim os episódios de sincronia que me atiram ao chão, como um K.O. técnico, sem hipóteses de recuperação, sim, é por isso que eu maquino nas horas livres uma teia de razões e justificações, todas elas profundamente belas e irrelevantes, e no entanto… Continuo preso a uma certeza que quase esqueci e que me deixou uma marca profunda na alma, sim eu sei, é irracional, diria mesmo que passa o limite do absurdo, mas sim, é a minha forma de continuar vivo, numa viagem onde ainda não saí da casa de partida, sim eu sei que os mesmos objectos possuem outro brilho, mais definido, com mais verdade, que toda a experiência contribui para esse ponto focal, ouço as engrenagens a colocarem-se em posição, vejo o relógio que marca inexoravelmente os segundos, as peças do puzzle encaixam perfeitamente, é me impossível duvidar, sim eu sei, é me impossível duvidar, e no entanto…

o átrio do voo

Ela sacudiu a mecha de cabelo do rosto, inclinou-se na minha direcção. «Então, não respondes?». O Sol desaparecia, mas ainda havia uma luz laranja reflectida nos seus olhos escuros, sorria divertida, com o seu desafio provocador. «É um pergunta impossível» disse-lhe «Eu sei, mas responde na mesma» disse ela «O que é para ti o amor?». Olhei para o relógio, para os horários do painel, havia tantas formas de escapar a uma pergunta impossível, mas não me lembrei de nenhuma, sorri de volta na esperança que ela desistisse, mas ela permaneceu muda, então disse-lhe: «O amor é para mim um barco de silêncios, mistério à tona, equilíbrio precário de um simbolo mágico ou um número indizível, segredo que sou obrigado a procurar todos os dias entre as casas as horas e as pontes, como um cão vadio, para não morrer. O amor é a lição, que o ego é um poço sem fundo de ilusões, que existem corpos maiores, feitos a muitas mãos, mas inteiros como uma árvore, que sussuros quentes no ouvido de um noite fria, podem estar a dizer «casa», a um sem-abrigo de afectos. O amor é também, esta tentativa de expressão, no átrio do voo, no precipício do mar, como se fosse a oração diária de um devoto proscrito, que tem por terço a vida, e por Deus o mistério. O amor é viver enredado num teatro de absurdos, onde invento mil vidas de bom, para me redimir de mil vidas onde sou o vilão, drama diário onde aceito e rejeito os meus actos, numa luta continua entre o ser e o nada, desenho de fronteiras na superfície da pele. O amor é também o medo da morte, medo da obra inacabada, medo dos pesadelos de infância, é um mundo de significados construídos no limiar abrupto da loucura, limite onde o por vezes o procuro, sempre com medo, muito medo, que a esperança acabe. O amor é eu vencer esses medos com a oferta de um sorriso mais cálido, numa tarde de Sol, quando contemplo esse mistério dentro dos olhos de uma mulher». Olhei-a fixamente com um  sorriso, desta vez era eu que provocava. Ela ficou em silêncio, abriu ligeiramente a boca, como que para dizer algo, mas foi interrompida pela voz metálica do altifalante, anunciavam a minha porta de embarque, despedimo-nos, nunca mais a vi…

o amor em fuga

Existem noites quentes e fugidias onde os corpos se fundem em desejos de lava. São corpos incoerentes, quebrados por vontade. Horizontes encobertos nos lençóis da mentira… Nasce o sol na chama da fogueira, e os amantes queimam, em mentiras inacabadas, as palavras febris que aprenderam, dando liberdade á metamorfose da vida. Palavras como folhas levadas pelo vento, abafadas pelo ritmo cego do corpo forçado, e inventam o amor como sendo novo. Talvez, num breve instante onde o amor será verdadeiro, os olhos serão tocados por um brilho de cobre, e as mãos um calor instantâneo, mas a noite lançará as suas mantas sobre as cinzas do acto, e o vento transformará tudo em sonhos…

o jardim zen

A morte não é um ponto, é uma virgula. Mas no silêncio infinito dos teus olhos, o grito da ideia passa sem ser notado. Já não é o abismo que te perturba, nem a dor ou a fúria de seres frágil, é simplesmente a cor dos olhos fechados. E esse negro, é um ponto de gravidade, que suportas como correntes presas à tua alma. É o insustentável peso de não seres, de não possuíres a crueldade necessária. Incapaz de responderes ao absurdo diário, ao adiamento inexplicável da morte… Já não são os ossos que te seguram, mas as palavras. Palavras como sangue, cor ou fumo. Palavras infinitas como as tuas mãos, que ao toque dos dedos tudo incendeiam por excesso. Quando procuras o sentido, é como procurar pedras no jardim Zen. As tuas mãos queimaram as pedras.

a cidade dos mortos

Há dias em que tenho a sensação curiosa de nunca ter deixado a cidade dos mortos. Sinto-o na espuma dos dias, na opressão de um ar fétido e tenebroso, destruidor de corpos e de realidades invisíveis. Sinto-o nos olhos em fuga, nas palavras fora do tom, na melodia gasta e decadente de um funeral. Sinto-o nos limites que florescem como flores negras de cinza, por entre os passos apressados, em caminhos quebrados. Sinto-o no cheiro a putrefacção que emana do musgo em paredes demasiado altas e amarelas de fel. Por vezes, acontece-me gritar… Como agora. Em palavras mudas, também elas mortas, por só terem encontrado chão de pedra (nestas cidades vertiginosas e obscuras). É um grito líquido, daqueles involuntários, e costuma terminar nas fonteiras do sonho. Amanhã é outro dia. Talvez.

geometria da banalidade

Os matemáticos reuniram-se com o conselho da republica. Era urgente o controlo da epidemia, que medida no esquadro métrico, ostentava a dimensão de uma catástrofe. Os sintomas eram corações negros e lucidez branca. Identificaram a origem num individuo cinzento que resolveu usar uma gravata amarela. Um acto original que criou uma dor aguda nas pessoas banais, limitadas pela incapacidade de escolha de uma cor. A limitação foi prontamente combatida com imitação, mas algo correu mal. Erraram no tom amarelo e introduziram uma propagação incendiária. Em pânico, pintaram paredes para eliminar a diferença das gravatas estendidas aos corpos, criando ilhas perdidas de homens sem cor onde se ancorar. Pessoas com cores que já ninguém possuia, sofreram solidões até então desconhecidas. Era necessário uma acção correctiva. Os matemáticos pela impossibilidade do retorno à banalidade, decidiram eliminar a diferença pelo excesso da diferença. Maquinaram um plano de luz e sombra na percepção colectiva para que o excesso de cor permitisse o retorno à cor indefinida. As brigadas militares instalaram as máquinas e a diferença epidémica foi eliminada. Os matemáticos receberam medalhas na parada do sucesso, e fecharam o ser original na sala branca do hospital psiquiátrico, com lápis de cor, para estudo posterior.

melancolia

Ela é a espuma dos dias… Enorme como uma montanha branca. É da cor da ausência e tem a forma, de todos os rostos desconhecidos. Ela é o vazio por dentro do peito, e o saber do vazio. O mundo ao contrário, as lágrimas, com um sorriso nos lábios. Ela é o seu próprio limbo, persistente como uma rocha, porque é feita de uma luz sólida. Uma barreira invisível, presente em todas as noites intermináveis, onde volta uma e outra vez a si, com medo na boca, no olhos, nas mãos… É a vida que se passa além no horizonte. Ausência de verbo, de sonho, e o saber da ausência. Ela aparece sem diluvios e sem gritar o seu nome. É uma teia que constrói na alma, um campo de forças, que esconde dos olhos o poder do real, o poder da escolha. Todos os caminhos do sonho são paralisados, por uma inércia impossivel. A realidade torna-se fictícia, decadente e constrangedora. Só escapa quem consegue abrir os olhos da alma, mas ela é venda negra e forte. Ela é, a não reacção, o contágio, a doença que alastra nos rostos sem sorriso. Ela poderia ser sem dúvida, o quinto cavaleiro do apocalipse… Ela é o senão sem bela, o fruto podre.

desassosego

Hoje é um daqueles dias, inquietos, arteriais, onde os segundos parecem saltar do relógio, é um dia do desassossego, queima-te os pés se os deixares tocar o chão, desaparecem os sítios de chegada, ficam apenas os de partida, já não há casas iniciais de conforto, nem sofás de anestesia colados à televisão, há apenas as grandes planicies, a pele morna do vento, o grito sem eco por dentro do peito, sapatos de pó, e uma cantilena de letras… L-I-B-E-R-D-A-D-E.



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