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saudade

A saudade é uma árvore de sangue. Uma árvore feita de seiva acesa por dentro das veias, com ramos de dor que ocupam o peito, e folhas que sobem à garganta, de onde brotam flores de silêncio. Todas as emoções genuínas são árvores de sangue, mas ao contrário do ódio e do amor, a saudade não cresce na luz do objecto, mas na sombra da sua ausência. É por isso uma árvore paradoxal. Cresce por dentro da noite, como os gatos e os segredos. A suas folhas criam gotas de sombra, que se alimentam a si próprias. Por isso, basta uma pequena semente para criar uma árvore frondosa. Essa semente é sempre uma ausência que cresce. A ausência de um sorriso, ou a ausência de uma mão, que se transformam na ausência de um corpo. Por exemplo, uma sombra alastra e cobre uma casa, o vento para, os pássaros calam-se. Desaparece uma cidade e os seus ruídos, as ruas ficam vazias. Gritamos, mas ninguém nos ouve. Caímos e ninguém nos ampara. A saudade é neste exemplo uma árvore paradoxal. O paradoxo está na pele que serve de fronteira entre a árvore e os seus efeitos. A ausência cresce por dentro mas sente-se por fora. Estamos num sítio cheio de gente, e não vemos ninguém. Perguntamos porque estamos sós, quando na verdade, fomos nós que partimos. A saudade e as suas flores de tristeza, podem levar à morte ou à loucura. Aconselha-se um comprimido de luz branca a seguir ao jantar.



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