Amor Oblíquo
Atravessa este quarto o meu sonho de um amor infinito, e o barulho da chuva lá fora desenha um corpo de água. As gotas de chuva inventam as curvas da sua nudez, e o dia sombrio é a memória de uma manhã de Sol dentro da minha alma. Houve um tempo, em que tinha as mãos abertas sobre a pele de um corpo assim liquido. Hoje existe apenas este quarto vazio, e todos os caminhos quebrados. Estou preso em duplo tempo, entre a memória desse amor nítido e calmo, e a promessa de um outro inventado na água do vidro. E é neste tempo circular, que me arrasto a mim, e a todo aquele sistema incoerente de perguntas que acompanha os grandes mistérios. Sonho-me assim, numa memória do futuro, entre os sorrisos de Sol, e um corpo de água. Faço-o sempre com palavras silenciosas, porque tenho medo das verdades gritadas a céu aberto. Eu sei que elas impregnam o ar com o perfume das ideias e das formas, e tenho medo que esse acto me traga aquilo que a minha alma quer. Sou um prisioneiro cobarde, de um tempo com a porta aberta, e escuto o nome desse corpo na água, como se fosse feito de plantas e astros, que me pede para devorar os planetas e as fontes. Sou um prisioneiro dos sonhos que faz das suas noites viagens lentas e infinitas… Prisioneiro de um tempo, onde invento as minhas próprias regras, escritas com a luz do Sol, no papel transparente de uma metamorfose, e com a cor das suas várias estações. Nada é inteiro, e os fragmentos das minhas palavras e acções, são círculos e sombras de uma cegueira diária. São mil espelhos capazes de dispersar esse amor num desfilar de corpos deitados. Sons quentes que provocam o excesso necessário, mas incapazes de ressuscitar a memória límpida dos gestos, ou de uma luz mais pura… Todos esses actos incoerentes são como a queda de uma sombra, ou um vidro partido. São a esmola recusada ao primeiro estender da mão pedinte, como as estrelas que não se podem olhar de frente, que só existem enquanto se recusam, fugindo ao primeiro desejo de eternidade. Hoje, aqui, estendo as mãos ao vidro de água, porque eu sei que o tempo é circular e que o princípio e o fim são uma mesma visão do absurdo. Atiro a memória do Sol, contra o medo que este corpo se transforme num rio e por sua vez num mar, e que assim fuja à minha enorme sede. Persigo uma forma de o deter numa forma cristalina e pura, mas acabo por destruir todas as provas, porque as palavras podem ser crimes breves cometidos no papel de uma conspiração. Fico assim, preso à fluidez dos riscos de chuva, preso a um duplo tempo, onde todos dias são uma pequena morte…
