a cidade dos mortos
Há dias em que tenho a sensação curiosa de nunca ter deixado a cidade dos mortos. Sinto-o na espuma dos dias, na opressão de um ar fétido e tenebroso, destruidor de corpos e de realidades invisíveis. Sinto-o nos olhos em fuga, nas palavras fora do tom, na melodia gasta e decadente de um funeral. Sinto-o nos limites que florescem como flores negras de cinza, por entre os passos apressados, em caminhos quebrados. Sinto-o no cheiro a putrefacção que emana do musgo em paredes demasiado altas e amarelas de fel. Por vezes, acontece-me gritar… Como agora. Em palavras mudas, também elas mortas, por só terem encontrado chão de pedra (nestas cidades vertiginosas e obscuras). É um grito líquido, daqueles involuntários, e costuma terminar nas fonteiras do sonho. Amanhã é outro dia. Talvez.
