o átrio do voo
Ela sacudiu a mecha de cabelo do rosto, inclinou-se na minha direcção. «Então, não respondes?». O Sol desaparecia, mas ainda havia uma luz laranja reflectida nos seus olhos escuros, sorria divertida, com o seu desafio provocador. «É um pergunta impossível» disse-lhe «Eu sei, mas responde na mesma» disse ela «O que é para ti o amor?». Olhei para o relógio, para os horários do painel, havia tantas formas de escapar a uma pergunta impossível, mas não me lembrei de nenhuma, sorri de volta na esperança que ela desistisse, mas ela permaneceu muda, então disse-lhe: «O amor é para mim um barco de silêncios, mistério à tona, equilíbrio precário de um simbolo mágico ou um número indizível, segredo que sou obrigado a procurar todos os dias entre as casas as horas e as pontes, como um cão vadio, para não morrer. O amor é a lição, que o ego é um poço sem fundo de ilusões, que existem corpos maiores, feitos a muitas mãos, mas inteiros como uma árvore, que sussuros quentes no ouvido de um noite fria, podem estar a dizer «casa», a um sem-abrigo de afectos. O amor é também, esta tentativa de expressão, no átrio do voo, no precipício do mar, como se fosse a oração diária de um devoto proscrito, que tem por terço a vida, e por Deus o mistério. O amor é viver enredado num teatro de absurdos, onde invento mil vidas de bom, para me redimir de mil vidas onde sou o vilão, drama diário onde aceito e rejeito os meus actos, numa luta continua entre o ser e o nada, desenho de fronteiras na superfície da pele. O amor é também o medo da morte, medo da obra inacabada, medo dos pesadelos de infância, é um mundo de significados construídos no limiar abrupto da loucura, limite onde o por vezes o procuro, sempre com medo, muito medo, que a esperança acabe. O amor é eu vencer esses medos com a oferta de um sorriso mais cálido, numa tarde de Sol, quando contemplo esse mistério dentro dos olhos de uma mulher». Olhei-a fixamente com um sorriso, desta vez era eu que provocava. Ela ficou em silêncio, abriu ligeiramente a boca, como que para dizer algo, mas foi interrompida pela voz metálica do altifalante, anunciavam a minha porta de embarque, despedimo-nos, nunca mais a vi…
