Karmaleão
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paleta filosófica

Azul. Nasci de espanto. Com um grito, quebrei o vidro do silêncio e os relógios acordaram o meu corpo incógnito. Foi um corpo violento, flor colhida num ventre de fábulas puras. Um astro caído, poeira de estrelas, ainda (e sempre) o limite indefinido da pele ou a inexplicável transparência da matéria. Minha mãe estendeu as mãos ao lençol azul. Fiquei dentro do mar, do céu, e a cor suspensa nos olhos.

Vermelho. Abro a boca e beijo a nudez do seu corpo terra. A sua pele de verão é fruto colhido pela minha boca d’água. Sou um trabalhador pobre, e com o arado perfuro a sua vinha na manhã luminosa de Setembro. Invento a vida arterial, plano cruzado do amor, poema dionísico à embriaguez, enquanto bebo o vermelho do sangue do vinho, e morro no seu sexo.

Preto. Respirarei o ar denso, em golfadas lentas e amargas. No ar, desenharei um círculo de terra e tábuas mortas, que darão fundo às ruínas silenciosas. Será um rio sólido, que estremecerá a tangente imóvel. Gritarei o silêncio, mas nem luz, nem vida me responderão. O meu fato será preto, e a porta impiedosa do meu quarto (sem janelas) convidará a ficar eternamente…



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