Karmaleão
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poema circular

Durante a maior parte do dia, esperamos junto à janela, banhados pela luz límpida de Março, enquanto o pai, num frenesim de pássaro louco, esperava junto à porta, que lhe entregassem o rebento, um corpo que ele sabia, que iria ser inseguro, cheio de incertezas e fremidos, banhado no sangue raiz da sua mãe, que, qual arvore de fruto, abria as pernas na sala de parto, com as raízes espetadas no céu, esperávamos o espaço de um milagre, até que os gritos maternos se misturaram com uns gritos incógnitos, tímidos, voz confusa no vazio estilhaçado do silêncio daquele corredor de fim do mundo, o médico abriu a porta e num bocejo de compassos, disse que era um rapaz, que a enfermeira entregou a um pai lívido de um terror magnífico, ele pegou no corpo, que era o princípio regulador do amor, uma distorção magnífica do espaço na forma de um poema vivo, e, que apesar de não ser mais do que um vaso obscuro de sangue quebrado por uma violência solar, era o prenúncio de algo mágico, era a metamorfose voluntária e subtil do amor, a transformação de um poema na brisa que sopra por dentro das folhas de Março, que suspensas nas árvores frondosas do rio da vida, cantam todos os milagres, essa metamorfose era por isso um intenso acto de amor, que os olhos felizes da mãe contemplavam, enquanto pousavam na infatigável paz das coisas exteriores, e o pai, imóvel, se segurava a si mesmo. Foi só anos mais tarde que o voltamos a ver, essa metamorfose era agora um homem feito, que trabalhava a terra que haveria de semear, cujo o suor do rosto moreno não escondia o olhar sereno, soubemos depois que ele se perdeu de amores pela filha do capitão, que a perseguiu até ao prado onde pastavam os cavalos, e escondido pela erva alta tocou pela primeira vez nos seus cabelos louros, bebeu dos seus lábios um sabor a mar, e navegou nos seios brancos e leitosos, que ela despiu como duas luas abertas, e ele, absorto numa primeira lição de amor, procurou o seu ventre coberto por flores de água, onde haveria de semear a semente mais pura e mais bela que conseguiria imaginar, há quem diga que o ouviu gritar, como ave tímida em fúria de azul, foi só mais tarde que soubemos, pela filha do capitão, que a semente se tinha transformado num outro poema, pedra estrela que aprendia devagar os desígnios do espaço, era a melodia perpétua do amor, fruto multiplicado pela consecutiva promessa de um poema circular. O poema tinha finalmente aprendido a metamorfose da eternidade…



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