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A página em branco

Bonifácio olhou para a página em branco em cima da mesa com um misto de agrado e de repulsa. Agradava-lhe saber que era o fim, mas sentia repulsa pela necessidade de explicar porque se ia matar. Essa explicação parecia-lhe uma violência maior do que o acto em si, mas tinha de explicar à sua mulher e aos seus dois filhos porque terminar a sua vida era, (tendo em conta toda a luz das causas exteriores) a melhor opção. Por isso, mais por resignação do que determinação, sentou-se para escrever a sua carta de suicídio. No entanto, apesar da clareza da sua decisão, as palavras não lhe saíam. Tentou invocar as razões que o levavam a esta decisão radical e a dor invadiu-lhe novamente o peito. Todos os erros que cometeu em acções, palavras e pensamentos. Os erros que cometeu a tentar reparar os erros que tinha cometido. As desculpas que à força de tanto serem repetidas tornaram-se elas próprias um erro. Sempre juntando erros em cima de mais erros numa pilha crescente até que a própria ideia de estar vivo se apresentou como um enorme erro. Tinha percebido que a perfeição não se atinge quando não há mais desculpas a acrescentar, mas sim quando não há mais erros a retirar. E por isso decidiu retirar-se do mundo dos vivos. Oh como ele queria apagar tudo, como ele desejava voltar atrás, ao estado puro da inocência, onde as memórias não lhe doíam tanto, onde elas não lhe provocavam o rio de lágrimas que começava novamente a cair-lhe pela face… Oh Eternal Sunshine of the Spotless Mind! Tinha percebido tudo, mas agora era tarde demais. Com a emoção a tremer-lhe nas mãos, começou a escrever: “Eu queria ser uma página em branco”. Quando acabou a frase, olhou para o que tinha feito. Aquilo que era uma página em branco estava agora molhada de lágrimas e de uns rabiscos ilegíveis. Percebeu que tinha cometido mais um erro, e que essa era a metáfora da sua vida. Enxugou as lágrimas, enviou a página para o lixo e colocou outra imaculada no seu lugar. Encostou o cano da arma à têmpora e puxou o gatilho.



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