O Medo
«vivemos na precisão milimétrica da cela. (…) permanecemos imobilizados sob a densa corda de luz que nos enforca a secreta e branca escuridão da alma.» Al Berto em O Medo.
«Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz.» Platão
Levantou-se e acendeu mais um cigarro. Havia já vários dias que a Liz não telefonava. A última vez que o telefone tocou, ele estava deitado a olhar para o tecto, a contar os segundos que o telefone demorava a voltar ao silêncio. Dezassete segundos da primeira vez, vinte e cinco da segunda, e oito na terceira. A vida de Richard, resumia-se agora a contar os eventos do seu dia, de forma metódica e precisa, que depois anotava num pequeno caderno de capa negra. Essa aritmética existencial, dava-lhe, segundo ele, o controlo final sobre a ordem das coisas, e permitia-lhe dessa forma, salvar o dia do caos. Sabia que ontem tinha fumado vinte e quatro cigarros, que tinha ficado deitado na cama doze horas e cinquenta e três minutos, e que entre outras coisas, a vizinha tinha ido nove vezes à rua, duas das quais em chinelos. Richard não tinha sido sempre assim. Antes de Brenda ter entrado na sua vida, ele era um homem aberto e feliz. No entanto, possuia na sua personalidade um traço narcisista, que fez com que ele tenha sido, entre os seus amigos, o último a conhecer o amor. Foi até, de forma divertida, que viu os seus amigos, apaixonarem-se um a um, a caírem de amores por mulheres que ele achava tontas infantis. Achava-se superior a isso, ele iria esperar por uma mulher que o merecesse. Com o passar dos anos, como essa mulher não aparecia, essa crença assumiu em Richard, o peso grave do destino, que se revelou finalmente um dia, na conjunção de uma música e de um espelho. Tudo se passou na casa de praia de um amigo de universidade. Ao voltar da cozinha, deparou-se com um enorme espelho do tamanho da parede, e com o reflexo irreal de uma mulher de olhos azuis e cabelos negros que o fitava com um sorriso de mona lisa, numa imagem que tinha o tom onírico de uma aparição. Na rádio, uma cantora negra, de voz profunda e doce, cantava «black is the color, of my true love hair». É costume dizer que as coincidências, são a forma de Deus manter o anonimato, por isso, quando Richard se virou e viu Brenda, sabia que tinha encontrado a mulher da sua vida. Para Richard, o amor por eles vivido foi em todas formas épico, digno de todos os grandes amores da história. Romeu e Julieta, Tristão e Isolda, Orpheu e Eurídice, Ulisses e Penélope tinham sido apenas prenúncios deste grande amor. Foi como se um dique tivesse rebentado dentro de Richard e anos de espera tinham permitido a esse rio, que ele mantinha guardado dentro dele, encontrar o seu mar. A pouco e pouco, toda as suas experiências ficaram impregnadas com a magia de Brenda. O mar e o céu, copiavam a cor dos seus olhos, a noite a dos seus cabelos, o nevoeiro de Novembro a suavidade da sua pele. Ela era o seu primeiro pensamento ao acordar, o único durante o dia, e o último ao deitar, até que Brenda se tornou para ele, maior que a própria vida. Quando um dia, Brenda, teve mudar de cidade, ele jurou-lhe que não haveria quilómetros no mundo capazes de acabar com o seu amor. As viagens de comboio, eram feitas com um sorriso, porque no destino, estava Brenda. Porém, num dia de Janeiro, uma Brenda distante recusou um convite para estarem juntos, com o pretexto de que estava frio, e esse acto, aparentemente banal, plantou na alma de Richard a dúvida se Brenda continuava a acreditar nesse amor, e por consequência a semente venenosa do Medo. Não conseguiu pensar em mais nada durante os dias seguintes. Essa semente cresceu e começou a envenenar-lhe a alma. Para Richard, a ideia de perder Brenda era inconcebível, era pior do que perder a própria vida, por isso, nos dias seguintes, redobrou os telefonemas e as cartas com juras de amor, numa atitude obsessiva crescente, que pelo excesso, mostraram a Brenda, que esses actos, já não eram movidos pelo amor, mas por algo muito mais sombrio, o Medo de perder esse amor. Até que um dia, numa das visitas, Brenda disse-lhe que ele estava diferente, e sem qualquer aviso começou a chorar. Uma semana depois deixou de responder aos telefonemas e às cartas que ele lhe enviava. Primeiro, Richard recusou-se a acreditar que Brenda, tinha desistido desse amor, provavelmente o seu telefone estava avariado, e obviamente que os correios eram uns incompetentes, até que percebeu a evidência da sua triste realidade, e isso fê-lo cair na mais dolorosa depressão. A dor foi tão forte que abalou as estruturas mais intimas do seu ser. Esteve semanas fechado em casa, emagreceu perigosamente, deixou a barba e o cabelo crescer numa negligência assustadora, enquanto se afundava num vazio e desespero sem fundo. O tempo passou, e Richard finalmente recuperou, mas nunca mais parou de ter Medo. Essa sombra, tinha ficado gravada na sua alma, como ferro em brasa, através da dor que tinha experimentado. O Medo dessa dor, fazia com que ele evitasse olhar qualquer mulher nos olhos mais do que uns segundos, com medo das implicações, e se resignasse com a possibilidade de nunca mais voltar a amar. Passou a viver uma existência solitária, num pequeno apartamento junto ao rio, acompanhado do seu gato Bonaparte. Até que um dia conheceu Liz, que tinha a característica invulgar de encontrar a versão mais cómica da vida, em qualquer situação. Nos momentos onde Richard provocava silenciosos embaraçosos, ou tentava fugir de um contacto mais humano, Liz rematava com algo que punha Richard invariavelmente a rir. O riso é uma força poderosa, para derreter o gelo do Medo, e isso fez com Richard se sentisse confortável quando estava com ela. Começaram a passar muito tempo juntos, até que um dia, ao entrar no elevador, Liz virou-se para trás e deu-lhe um beijo nos lábios. A surpresa fez com que ele não reagisse, ficou apenas a vê-la sorrir, enquanto a porta do elevador fechava. Nos dias seguintes fechou-se em casa, telefonou para o escritório a dizer que estava doente, e não respondia a ninguém, nem aos toques da campainha do prédio, nem aos telefonemas. O Medo revelava a sua faceta monstruosa. Ele via-se incapaz de enfrentar Liz, com medo do que pudesse acontecer, com medo de a poder amar, com medo de voltar a sofrer, foi por isso que quando Liz telefonou outra vez, ele soube que o medo o impediria de atender, então começou a contar os segundos até ela desistir. Um, dois, três, quatro…
