O teu toque pessoal
«O céu por cima do porto tinha a cor de uma aparelho de TV sintonizado num canal sem emissão.» William Gibson em Neuromancer
Estou na cidade-torre de Nebeth, sentado à mesa, olhando para a janela. Não há uma cadeira fora do lugar, não há um grão de pó no ar, não há palavras no papel de carta à minha frente. Tudo está perfeito e eu estou morto.
Há cerca de 4 anos que me mudei para esta cidade. Lembro-me que quando vim para cá, lhe ter dito «É só por um tempo…». Lembro a dor no peito, ao mesmo tempo que o dizia, a mesma dor espelhada nos olhos azuis com que ela me fitava. É estranho sentir assim no peito, uma voz do futuro, um sussurro de aviso. As nossas mensagens, foram-se tornando cada vez mais vagas, mais espaçadas, até que um dia pararam. Sem aviso e sem surpresa, de uma forma simples, como se começasse a chover… Não sei se foi ela ou se fui eu. Não sei se isso importa. Lembro-me de lhe ter dito «Voltarei para te buscar e depois casaremos.». Esta lembrança, hoje, provoca-me um sorriso triste. Como se deixar morrer a inocência, fosse condição essencial de sobrevivência.
Hoje, contemplo o rectângulo na parede a que chamam de janela no 740º andar e continuo sem saber o que é que correu mal. O plano era simples. Um trabalho honesto, umas poupanças. Abriria um negócio meu, talvez um daqueles restaurantes de comida caseira, com um aspecto simpático, algures entre o 400º ou 500º andar, na zona comercial média e ela viria ter comigo. O tempo tinha passado, a vida não me tinha corrido bem, e eu continuava sem perspectivas, sem futuro, e sem saber o que fazer desta vida absurda. Sentia-me como se a vida me tivesse traído.
Aproximei-me da janela, e olhei para as nuvens lá em baixo. Pela sua cor via-se bem que chovia. Era uma das vantagens de não ser rico. Era-se obrigado a morar nos “Cubos”. Apartamentos de uma única divisão, acima do 700º andar. Ao menos aqui nunca chovia. Era um sol eterno, sem estações que me entrava pela janela. Um sol frio, asséptico, que fazia irradiar a excessiva limpeza imposta pelos robots domésticos. Era a política da cidade, diziam. Era a busca ilusória da perfeição, pensava eu. Já tinha desistido de tentar ver alguma coisa suja, partida e fora do lugar. Era tudo imediatamente limpo, substituído e descontado no meu ordenado. Tentei imaginar como seria a vida fora das cidades-torre. Como seria a vida no chão, 2.2 quilómetros abaixo de mim. Tentei imaginar terra, sujidade, chuva, árvores. Eu trabalhava comia e dormia sempre acima do 250º andar. Só uma vez tinha descido abaixo do 100º, e foi quando um amigo meu me levou a fazer um pequeno serviço para um tipo rico que era amigo do seu patrão. A vida lá em baixo era bem diferente. Grandes corredores, salas enormes, soube que existia mesmo uma pista de corridas no 41º andar, embora eu nunca a tivesse visto. Era difícil ter acesso ás zonas ricas. O sistema de segurança da cidade-torre restringia os acessos de uma forma eficaz e impiedosa, e eu só tinha dinheiro para um passe amarelo.
O intercom holográfico acendeu-se. Uma cara (sempre a mesma) a avisar-me de que amanhã seria efectuada uma revista médica ao meu andar. Uma forma de prevenir e evitar doenças, diziam eles… Periodicamente, os médicos vinham, tiravam-me sangue, urina e esperma. Inspeccionavam todo o meu apartamento e determinavam por análises se eu era “confiável” ou não. Ser “confiável” significava não ser um risco para as 40 milhões de pessoas que habitavam a cidade-torre. O risco não era só medido em termos médicos, mas também sob a forma de qualquer conspiração que eu pudesse arquitectar. Isto via-se pela forma como os pretensos médicos me questionavam sob qualquer pertence que eu não tivesse registado, ou sobre qualquer acção que tivesse escapado à monitorizada rotina diária.
A única centelha de vida que eu ainda sentia, era uma revolta construída com as peças desta conformidade diária, continuamente recalcada, negada para as zonas mais sombrias do ser, que teimava em se afirmar. Era um grito nascente. A vontade de ser declarado “não-confiável” e expulso. Não ser mais este pedaço de carne morta que vegeta num caixão de vidro e de aço excessivamente limpo. Eu queria… Eu queria parar de chover.
Lá fora, o Sol frio e asséptico, contrastava com a chuva cá dentro da minha alma. A minha vida era agora feita destes pequenos momentos onde sentia nos ossos todo o peso da existência. Uma espécie de apatia, que desfocava os significados que tão laboriosamente tinha construído para a minha vida, e que transformava tudo num indistinto branco existencial. O papel de carta permanecia em cima da mesa. Num presente onde as comunicações são omniscientes o uso de papel era antiquado e excessivamente caro, mas eu sabia que isso a faria sentir-se especial. O toque do papel nos dedos, as palavras escritas por mãos ávidas, sentimentos que fluiam numa dança de dedos para a tinta no papel. Havia como que uma cumplicidade entre as ideias e os gestos, a unidade numa diferença expressiva, como quem sente com uma extensão de símbolos. Eu dizia «A minha caligrafia ilegível» Ela dizia «O teu toque pessoal…» Olhei para a folha de papel em branco, peguei na caneta e comecei a escrever…
