Karmaleão
archive rss

Anna

Ela voltou a escrever. Não esperava que o fizesse. Ela voltou a escrever quando pensei que nos tínhamos despedido para sempre. Não o fizemos de forma clara é certo, mas é facil escrever silêncio.  Juntam-se palavras, todas vazias, todas diferentes, mas que se lêm sempre da mesma maneira: adeus, adeus, adeus. Agora escreve e diz que pensa em mim, que não consegue deixar de pensar em mim, que não para de imaginar a hora em que vamos estar juntos. Aflige-me esta invenção do amor, deixa-me desconfortável. É como se estivesse a ler um amor estrangeiro, que nunca conheci, com o meu nome depois do verbo. Sinto-me deslocado, dividido entre o real das palavras e a ficção que elas inventam. Sou um tipo decente, não gosto de jogos que envolvam facas apontadas ao coração. Então adopto a tese paternalista do amigo distante e digo-lhe: Anna, não vês que o nosso amor é impossível? Anna (nome fictício), vive numa província central da Russia, a norte do Cazaquistão. Possui daquelas belezas primárias e genuínas. Pele branca de neve, lábios vermelhos carnudos como pêssegos maduros e olhos azuis de um lago muito profundo onde apetece enlouquecer. Sofre de um excessivo romantismo apenas possível numa idade que desconhece a desilusão do amor. Eu pelo contrário, já fui o Werther de Goethe, já sofri na pele a dor dos amores impossíveis. Não que tenha deixado de acreditar, mas já cometi o suicídio da ingenuidade e por isso digo-lhe: Anna, não vês que o nosso amor é impossível? Mas ela insiste. O que fazer ? Há quem diga que é possível inventar o amor através dos gestos, como se ao representá-lo, a ficção desse lugar ao real. Mas eu não acredito que Deus esteja no ritual da missa, que exista um processo mecânico ao qual a emoção fosse subserviente, secundária. Portanto, o que fazer ? É tudo um jogo - penso. A vida é um jogo e só nos é pedido que participemos. Então escrevo-lhe uma resposta onde digo: peão para e4. Imediatamente sinto um calafrio, porque me apercebo de que posso perder.



Karmaleão / @mail / based on rimy design / powered by Tumblr