Karmaleão
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Auto-Retrato

Se tivesse de escolher uma palavra, seria, perplexidade. Descobri-a muito cedo, numa tarde de praia adolescente, onde um livro me sussurrou a dimensão do céu. De então para cá, tem sido um desfilar de íntimos espantos. Desde muito cedo tive a prova de universos paralelos, até à universidade vivi em 12 escolas diferentes, muitas delas separadas por países de distância, talvez por isso me tenha sentido até muito tarde, estrangeiro no meu próprio corpo. Obtive a nacionalidade da minha pele, com o meu primeiro amor à distância, e foi com ela, que também descobri o meu amor pelas palavras. Eu já conhecia palavras, como sangue, cor ou fumo, mas com ela aprendi outras mais silenciosas, penduradas na boca, nas mãos e no sexo escuro em tardes claras. Depois aprendi a palavra inverno, num quarto vazio de uma cidade desconhecida. Felizmente, nunca parei de aprender palavras novas, como amigo, viagem, teorema, azul, equação, lábios, céu, variável, vermelho, dor, complexo, abraço, sistema, morte, casa, entropia, chuva e riso, mas é com algum embaraço, que verifico a minha demora na palavra silêncio. Já mudei de casa 4 vezes e visitei 4 continentes, mas ele parece não me largar…



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